Chegou a primavera com a arte de ilustrar a natureza

 Chegou a primavera com a arte de ilustrar a natureza

Como estamos entrando na primavera, a estação das flores, lembrei-me de uma técnica de desenho especializada na ilustração de plantas, com a finalidade científica de documentar e descrever, para fins de estudo, as próprias plantas como elementos de uma natureza rica, em constante transformação, bem como para inseri-las em obras de arte, como o fez Leonardo Da Vinci.

 

Nascida na Renascença, séculos XVI e XVII, a ilustração botânica é um segmento das ilustrações científicas. As ciências seguiam caminhos diversos: aquelas que analisavam quantitativamente seus objetos de observação e as que o faziam com bases nas qualidades. O desenho era mais afeito a questões de qualidade e proporções do que ao estudo da matéria em si, que é de outra ordem – a das substâncias, estruturas e quantidades. Leornardo Da Vinci “preferia representar as formas da natureza nos desenhos mais do que descrever os seus aspectos, e as analisou nos termos das suas proporções mais que das quantidades calculadas” nos conta Fritjof Capra em sua obra “A Botânica de Leonardo Da Vinci: um ensaio sobe a ciência das qualidades” (Cultrix, 2011). Prefaciando o mesmo volume, Valentino Mercati comenta como o olhar de Leonardo para a natureza e as ciências já era extremamente avançado, para muito além do estudo dos micro-organismos e do DNA. Sua visão “encaminha-se para a compreensão dos sistemas vivos como fenômenos complexos e em constante evolução (…) Nessa nova ciência de vanguarda, emerge com clareza o valor do natural, contraposto à distensão da síntese e da modificação genética”.

 

Com um olhar muito peculiar, estudiosa das plantas, a inglesa Margaret Mee (1909-1988), buscava deixar registrado para o mundo seu olhar contemporâneo, já preocupado com a conservação das riquíssimas espécies brasileiras. Mudou-se para o Brasil nos anos 50 e lecionou arte na Escola Britânica de São Paulo. As ilustrações botânicas por ela produzidas em guache e aquarela, em sua maioria, a partir de suas expedições à Amazônia, foram sua forma de armazenar, conforme era seu desejo, o maior número possível de espécies raras daquela região do Brasil. Em uma homenagem póstuma, foi fundada a “Margaret Mee Amazon Trust”, organização para educação, pesquisa e conservação da flora amazonense e que promovia intercambio para estudantes de botânica e ilustradores de plantas brasileiras que desejassem estudar no Reino Unido ou conduzir pesquisas de campo no Brasil. Por meio do Centro de Ilustração Botânica do Paraná (2000), uma associação de artistas, entidade sem fins lucrativos, associada à Fundação Botânica Margaret Mee e dedicada à Arte Botânica, tiveram a honra de receber a Bolsa para ilustração artística do Amazon Trust os artistas de Curitiba: Diana Carneiro, Fátima Zagonel, Rosane Quintella e Alessandro Cândido.

 

Margaret Mee – Rudolfiella aurantiaca – do livro Flowers of the Amazon

 

Em sede própria, em Curitiba, o CIBP mantém encontros semanais onde são oferecidos cursos de iniciação e aperfeiçoamento da ilustração botânica, além de prestar serviços especializados de ilustração em cores, grafite e bico de pena. Esse grupo define sua arte como a busca por “representar uma planta com a maior fidelidade possível (formas e texturas), garantindo perfeito reconhecimento e possibilitando a identificação do vegetal. Através de aprimoramento técnico e artístico, o ilustrador capta todas as características formais do vegetal, traduzindo-as num trabalho expressivo, capaz de sensibilizar o observador”.

 

Capa do livro de Diana Carneiro

 

É primavera! Visite o Jardim Botânico de nossa cidade e desfrute de um lindo dia de sol junto à natureza, tome um café e conheça também o espaço permanente onde nossos ilustradores expõem e comercializam sua arte.

 

(Imagem de abertura: Leonardo Da Vinci – Viburnum opulus – do livro Botânica de Leonardo Da Vinci)